Circo Imperial está na Cidade


17 de fevereiro de 2012 - 20:04


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Companhia apresenta-se até o dia 26; espetáculos duram até duas horas e meia

LUCIANO DEMETRIUS
Da Oeste Comunicação

Rodrigo Portácio, Angelito Barreto, Francisco de Assis, Wiktor Henriques, Carlos Batista e Johnatan Fernandes (Foto Luciano Demetrius)


Respeitável público, o Circo Imperial está na Cidade. Desde o dia 10 de fevereiro, ao lado da Feira Municipal, no Santa Cruz, tem palhaço, mágico, globo da morte, balé aéreo, malabarismo, trapézio e ilusionismo, sim senhor!
Tradição da família Braskuper, de Belo Horizonte, a companhia apresenta-se até o dia 26, às quintas e sextas-feiras, às 20h30, e aos sábados e domingos, às 18h e 20h30. Durante o carnaval, haverá espetáculos na segunda-feira, às 20h30, e na terça-feira, às 18h e 20h30.
Quem passa em frente ao Imperial não imagina que a lona de 24 metros de largura por 34 metros de extensão, que cobre 500 cadeiras, o palco e o globo da morte, faz parte de uma estrutura mantida por 13 verdadeiros artistas, tanto dentro como fora do picadeiro. “É a realidade do circo. Você tem que atuar em várias funções, desde o erguimento da lona, quando você chega em uma cidade, até a hora do espetáculo”, diz Wiktor Thomas Henriques, primogênito do casal Eurico Braskuper (nome artístico de Carlos Roberto Batista) e Walgneris Suely Henriques (ou somente Suely Henriques), que idealizou a companhia.
A história do Circo Imperial é contada por Wiktor e por seu irmão Carlos Roberto Batista Júnior, 14. Durante a visita da reportagem ao Imperial, Eurico e Suely estavam em São Paulo, a serviço do circo. “Eles foram comprar uma cama elástica e também pegar as caixas de pipocas personalizadas com o nome do Imperial”, disse Carlos Roberto Júnior.
Detalhadamente, os irmãos contam a trajetória da companhia com cuidado para não esquecer datas e nem personagens. Johnatan Fernandes, o Kbeça, que está há um ano e meio com o grupo, se acomoda em uma das cadeiras e auxilia os irmãos quando um deles esquece alguma informação.
Além de Wiktor e Júnior, outros três irmãos deles (Caio, dez anos, os gêmeos Cauá e Isabelly, de três) e o primo Michel Henriques Silva, 21, formam a família Imperial.

Trajetória. O Circo Imperial está na ativa desde 2005, mas sua história é marcada por outras duas tentativas anteriores de criar uma companhia circense independente. A primeira investida aconteceu em 1995. O então trapezista Eurico Braskuper e a bailarina Suely Henriques criaram o Circo Caribe, quando Wiktor estava com três anos de idade. “Eu nasci e cresci no ambiente circense. Aprendi a dar meus primeiros passos no circo”, diz o hoje jovem de 19 anos que se reveza no trapézio, globo da morte, cama elástica, na apresentação de laços e chicote, na contrarregra e na interpretação do homem-aranha.
Os altos custos, que poucas vezes eram cobertos pelo retorno da bilheteria, provocaram o fim do Caribe. Restou ao casal voltar a se apresentar em companhias maiores e com tradição. Eurico e Suely integraram, por dois anos, os grupos dos circos Di Roma, Beto Carrero, Portugal e Garcia.

Projetos. Porém, o desejo de ter uma trupe independente foi mais forte e, em 2000, os dois saíram em busca de um segundo desafio. Entrava em cena o Circo Braskuper. O empreendimento novamente enfrentou as dificuldades financeiras anteriores e não resistiu. “Meus pais praticamente pagavam para se apresentar. Os espetáculos eram elogiados, mas a procura do público era inferior ao que se esperava. A receita da bilheteria não cobria os custos”, diz Wiktor.
O filho mais velho do casal não se recorda do ano que o Braskuper saiu de cena, mas lembra do que fora feito do material do circo. “Boa parte do equipamento que tinha lona, ferragens e cadeiras ficou guardada no galpão de um sítio de uma senhora, no interior do Espírito Santo. Ela não cobrou nada para ceder o local. Meu pai disse que um dia iria voltar para buscar o material”, conta Wiktor. E novamente o casal participou de outras companhias (circos Las Vegas, Di Cuba e Internazionale).
Em 2005, a terceira tentativa, desta vez com o Circo Imperial. Agora, o empreendimento estava mais sólido, pois além das experiências anteriores, o casal circense conseguiu contratar artistas do setor. Porém, a nova empreitada não poderia deixar de ter um problema. Quando Eurico Braskuper tentou recuperar o material deixado no sítio, recebeu a notícia de que a proprietária do local entregou os equipamentos para um ex-funcionário do circo. “Ela disse ao meu pai que o rapaz passou por lá dizendo que a companhia seria montada novamente e que por isso foi buscar o material”, conta Wiktor. “Meu pai ficou abalado, até quis procurar o rapaz que levou todo o material embora, mas minha mãe o convenceu a desistir da ideia. O melhor a fazer era começar tudo de novo”.
Apesar dos enfrentamentos, o grupo conseguiu uma lona maior que a anterior e já tinha duas carretas e um cavalinho. Hoje, são três cavalinhos, seis carretas, quatro motos – três Honda CG 125 e uma modelo 100 cilindradadas para as apresentações do globo da morte – e três automóveis – uma F-1000, um Celta e um Fiat Pálio.
O Circo Imperial ganhou vida e se consagrou principalmente no interior do Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Neste Estado, conquistou o direito de participar de três projetos (Carequinha, Cena Minas e Lei Estadual de Incentivo à Cultura). Assim, os riscos de prejuízo eram menores, uma vez que os projetos bancavam as apresentações.
Em Ipatinga (MG), a companhia atuou na campanha de popularização de teatro e dança. “Foi uma fase que contribuiu para colocar o nome do Imperial na mídia. Houve uma ocasião que a Rede Minas passou uma semana conosco acompanhando todo o processo de trabalho, desde a montagem da lona até a nossa saída de uma cidade para a outra”, lembra Wiktor.
A partir daí, o grupo passou a se apresentar em ou-tros Estados. Na Bahia, o Circo Imperial está desde dezembro de 2010. O início foi em Ilhéus e, até chegar a Luís Eduardo, em 10 de fevereiro último, o grupo se apresentou em outras 18 cidades do interior baiano.

Histórias. Na Bahia, a companhia tem histórias que não vão sair da memória. Em Jaguaquara, uma das carretas foi tomada pelo fogo e parte do material do circo virou cinza. “Tudo aconteceu por causa de uma brincadeira nossa com um dos integrantes do grupo. Estávamos jogando bombinha para assustar o rapaz que estava dentro da carreta. A brincadeira custou caro. Perdemos boa parte das cadeiras, uma cama elástica e um letreiro”, conta Júnior. “Conseguimos salvar algumas cadeiras, mas elas têm o sinal do incêndio”, diz Wiktor apontando para uma cadeira branca com uma mancha preta proveniente do fogo.
“O prejuízo foi de dez mil reais”, completa Wiktor.
Em Barra, ocorreu a experiência que o grupo afirma ter sido a pior do Circo Imperial. Na primeira noite de apresentação na cidade, um grupo de pessoas que não queria pagar ingresso, apedrejou o circo, chegando a furar a lona. “Foi um sufoco. No dia seguinte o seu Eurico resolveu desmontar tudo e partir para outra cidade”, diz Johnatan.
As apresentações pela Bahia também renderam novos integrantes ao Imperial. Em Itaberaba, uma jovem de 17 anos ofereceu-se para seguir viagem com o grupo. Balbina Oliveira (Babi) colabora como assistente do mágico, atendente e bailarina.
Em Barreiras, a companhia ganhou outros três componentes com a entrada de Angelito Barreto, 26 anos, Rodrigo Portácio, 18, e Francisco Pedro de Assis, 21. Angelito largou o comércio de roupas que mantinha, Rodrigo saiu da sorveteria em que trabalhava e Francisco havia recentemente abandonado a carreira de jogador de futebol. “Cheguei a atuar profissionalmente no Fortaleza, Comercial (PI), Mogi-Mirim (SP) e São Caetano. Precisei parar por causa de um problema na bacia”, diz.

Apresentações. Os espetáculos do Circo Imperial têm duração de até duas horas e meia e os ingressos custam oito reais para adultos e cinco reais, para crianças. “Nossas apresentações estão voltadas para a família. Mas, infelizmente, ainda tem gente que acha caro pagar menos de dez reais para ir ao circo”, comenta Júnior.
O Imperial não trabalha com animais. Até a fase do Braskuper, havia participação de leões, tigres, pôneis e macaco. “Além da legislação, que proíbe o uso de animais para apresentação pública, era difícil manter os bichos por causa dos custos com alimentação”, diz Wiktor.
A companhia resolveu extinguir a apresentação com animais após acidente ocorrido em Jaboatão Dos Guararapes, na grande Recife, em abril de 2000. Na ocasião, José Miguel dos Santos Fonseca Júnior, de nove anos, foi devorado por leões do circo após posar para fotos ao lado de uma das jaulas.
“Agora o público vem ao circo para assistir a performance dos artistas. Meu pai contava que antes as pessoas davam atenção apenas aos animais”, diz Wiktor.
Em cada cidade que passam, os integrantes do Circo estão amparados por lei para frequentar as escolas locais. “Nós levamos nossa transferência de cidade para cidade, com boletim de notas, carga horária e disciplinas cursadas. Apesar de termos esse benefício, fazemos poucas amizades”, conta Wiktor, que já completou o ensino médio e que sonhava entrar no curso de Engenharia. “Mas vou mesmo é me formar no Circo”.
Júnior está no primeiro ano do ensino médio. Já o primo Michel Henriques Silva chegou a cursar Direito, em Londrina (PR), mas o amor à arte foi maior e ele trancou o curso para seguir viagem com o circo.

Manutenção. Segurar os custos mensais é outro desafio de um circo. Além das contas de água e de luz e da manutenção dos veículos, somente o pagamento de funcionários consome, em média, R$ 1.500 por semana.
Diferentemente dos gastos, que aparecem chova ou faça sol, nem sempre é dia de espetáculo. Exemplo recente aconteceu em Luís Eduardo Magalhães quando, no sábado, 11, o público não compareceu devido às fortes chuvas.
A alegria, porém, retornou ao Circo Imperial quando no domingo, dia 12, a plateia ficou totalmente lotada.
A reação do público ao final de cada apresentação é o que move o artista a seguir no circo, independentemente do resultado na bilheteria. “O espanto das pessoas ao final de cada espetáculo é um dos incentivos para o artista circense. O público é nossa fonte de alegria e de vida”, afirma Wiktor.

Os Artistas do Circo Imperial

Carlos Roberto (58 anos): palhaço Rapadura e relações públicas e produtor do circo.
Walgneris (39 anos): balé aéreo ou corda indiana; locução; laços e chicotes (relembrando o Velho Oeste); bailarina no desfile de apresentação.
Wiktor, 19 anos: trapézio; cama elástica; globo da morte; homem-aranha; contra-regra do palhaço, contra-regra, laços e chicotes.
Júnior, 14 anos: malabares; cama elástica; tecido olímpico (acrobacias no tecido); trapézio; laços e chicotes; globo da morte.
Caio, 10 anos: trapézio; cama elástica; globo da morte; sonoplastia.
Gêmeos Cauã e Isabelly (3 anos): “Eles fazem é muita bagunça em todos os números. Já nos pediram as vestimentas para se apresentarem na cama elástica. Vez ou outra fazem seu número. Mas o que mais fazem é circular bastante pela plateia enquanto acontecem os espetáculos”.
Mychel Henriques Silva, 21 anos: palhaço Salgadinho; trapézio (atua também como palhaço Salgadinho); globo da morte; laços e chicote.
Johnatan Fernandes, o “Kbeça”, 21 anos (há um ano e meio no circo): contra-regra; em cena, atua no número da metamorfose da borboleta.
Angelito Barreto (26 anos): contra-regra; atendente da lanchonete do circo.
Rodrigo Portácio (18 anos): magias, mala misteriosa (ilusionismo).
Francisco Pedro de Assis (21 anos): contra-regra; ensaia no trapézio em balanço (sem rede de proteção).
Balbina Oliveira (Babi), 17 anos: atendente, assistente do mágico e bailarina. Para entrar no Imperial, ela precisou da autorização da mãe, por ser menor.


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