Transformação do Assentamento Rio de Ondas começou


2 de dezembro de 2011 - 20:00


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ANTONIO CALEGARI
Da Oeste Comunicação

Trator gradea dois hectares na área do assentado Jaime Brito Bonfim


Energia e água já chegaram a mais de 70% dos lotes do assentamento


A ideia da transformação do Assentamento Rio de Ondas em pólo de produção agrícola autossustentável começou a tornar-se realidade. A execução do projeto da Prefeitura de Luís Eduardo Magalhães e da Associação de Produtores e Irrigantes do Oeste da Bahia (Aiba) pode ser vista nas áreas que estão sendo gradeadas e preparadas para plantio e no rosto dos assentados. “É maravilhoso. Vamos ter terra calcariada, preparada, semente, adubo, assistência técnica e máquina para colher”, diz Delzi Freire de Albuquerque, há sete anos no assentamento. Numa primeira etapa, ele e a sogra terão dois hectares cada plantados pelo projeto. Nos seus dois hectares Delzi vai plantar milho. Em outros oito hectares de seu lote de 30, já cultiva mandioca, por conta própria.
“Saímos do tempo em que só se ouvia promessa de políticos de ajuda que nunca vinha. Esse projeto está revolucionando o assentamento”, disse Gilmar Cardoso Caetano, presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Vila 4. O assentamento tem outras três vilas, em área de 12,5 mil hectares desapropriada pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), em 1996, de usina de álcool falida, a cerca de 50 quilômetros de Luís Eduardo.
“Quando o projeto estiver concluído, servirá de exemplo ao Brasil”, afirma Inácio Spengler, gerente de Agricultura da Secretaria Municipal de Agricultura e coordenador da transformação no assentamento.
“Estamos mostrando como diminuir as desigualdades sociais no campo”, completou Inácio, gaúcho, que já andou por Mato Grosso e já foi vereador e secretário de Ação Social em Luís Eduardo.
No Assentamento Rio de Ondas estão 252 famílias assentadas pelo Incra em lotes de cinco e de 30 hectares. A maioria tem casa nas vilas, em lotes de cerca de meio hectare; ou-tros construíram suas casas na área de cultivo.
O assentamento tem outras duzentas famílias que foram chegando e servindo de força de trabalho em fazendas da região.
Desenvolver é a denominação do projeto da Prefeitura e da Aiba. Prevê o cultivo em 504 hectares – dois hectares de cada assentado. A implantação do projeto, que se iniciou há pouco, se estenderá até a próxima época de plantio, em 2012. Nesta temporada, deverão ser preparados e plantados, principalmente com milho, cerca de 100 hectares, beneficiando 50 assentados. Outras duas dezenas terão áreas gradeadas e calcariadas, mas o plantio com sementes, adubação e defensivos fornecidos pelo projeto só acontecerá no próximo ano, segundo explica o coordenador Splenger. Não há tempo para o preparo de todos os 504 hectares para o atual período de semeadura.

Inácio Spengler, coordenador do projeto


Áreas gradeadas. Muitos aproveitarão as áreas gradeadas e calcariadas para plantar feijão gurutuba ou sorgo, em janeiro. É o caso de Jaime Brito Bonfim e de sua filha Jaimara, técnica agrícola, baianos de Licínio de Almeida. Na quarta-feira, 30, os quatro hectares de Jaime e da filha estavam sendo gradeados pelo tratorista Cinaldo dos Reis Souza, homem e máquina contratados pelo projeto. Além dessa área, Jaime plantará milho por conta própria. O irmão Gilson veio de Licínio de Almeida para ajudá-lo.
Luis Carlos Santos, além dos dois hectares do Desenvolver, plantará cinco hectares de milho e outros cinco de arroz. Na quarta-feira, fazia desvio de água de chuva em torno do monte de calcário que adquiriu e foi descarregado à beira da estrada vicinal por carreta contratada pela Prefeitura, no âmbito do programa de apoio à agricultura familiar. A Prefeitura transporta para o assentamento 1,2 mil tonelada de calcário adquirida pelos próprios assentados.
O projeto Desenvolver fornecerá gratuitamente aos assentados, nesta temporada, 400 toneladas de calcário, 80 toneladas de supersimples, além de adubo, sementes, defensivos e assistência técnica. Ao final, fará a colheita dos 100 hectares que serão plantados agora.

Nascimento. A ideia de levar grandes produtores, por intermédio da Aiba, a apoiarem os assentados foi do prefeito Humberto Santa Cruz. Em setembro passado, o prefeito, acompanhado do secretário de Agricultura, Jaime Cappellesso, do diretor de Agricultura Anderson Spinola e de Inácio Spengler, visitou o assentamento para ouvir reivindicações dos assentados. “Foi um dia inteiro de visitas e reuniões”, diz Splenger. Foi nesses encontros que os assentados reclamaram da demora da Coelba na implantação do Luz para todos, programa do Governo federal,  e da falta de água nos lotes.
Como existiam várias projetos de pedidos de instalação de energia, o prefeito pediu que fossem reunidos em um só. O secretário Cappellesso ficou encarregado da tarefa. Ouviu interessados e promoveu reuniões com a área técnica da Coelba. Unificadas as solicitações de energia, o prefeito Santa Cruz levou a reivindicação à direção da Coelba, em Salvador. Com a Prefeitura bancando diferenças de custos em ligações que ultrapassavam o limite do Luz para todos, dois meses depois, mais de 70% dos lotes têm energia, com postes e fios instalados. Muitos assentados, que moram nas vilas, correram para construir pequenos cômodos em seus lotes, garantindo a extensão da rede de energia até a construção.

Pedido de água já foi atendido

O pedido de água nos lotes também foi rapidamente atendido. O prefeito autorizou a perfuração de quatro poços artesianos e cerca de 35 quilômetros de canos distribuem água a cerca de 70% dos lotes. “Hoje, quem tem gado, não precisa mais trazer água das vilas”, diz Spengler.
A chegada da água e da energia deverá incentivar muitos assentados a  trocar as vilas pela moradia nos próprios lotes, evitando a locomoção diária, segundo avalia o coordenador do Desenvolver.

Um dos três tanques de Gilmar Cardoso Caetano


Peixe. Na visita do prefeito ao assentamento nasceu outro projeto, de piscicultura. A ideia nasceu a partir da experiência de Gilmar Cardoso Caetano que, em três tanques, produziu seis toneladas de peixe na época da última Semana Santa.
O projeto vai incentivar assentados de lotes às margens do Rio de Ondas a seguirem o exemplo de Gilmar. O governo do Estado, por meio da Bahiapesca, se encarregará de fornecer alevinos, que hoje são trazidos do litoral por Gilmar.

Aviários. Da visita de setembro ao assentamento surgiu outra atividade para se chegar à autossustentabilidade: a criação de frango. Negociações que se seguiram, capitaneadas pelo secretário Jaime Capppellesso, resultaram em parceria, que prevê a instalação de quatro aviários, cada um com capacidade para a produção de 16 mil frangos no período de 45 dias. Cada aviário custará entre R$ 150 mil e R$ 160 mil.
A produção de frangos será integrada à Mauricéa, que entrará com o projeto e 10% dos investimentos. Igual participação terão a Prefeitura e a Associação Nacional dos Fabricantes de Equipamentos Avícolas e Suinícolas (Anfeas). O restante será financiado pelo Banco do Brasil. Os assentados só esperam que a Mauricéa entregue o projeto.

Gabriel, filho de Leopoldo, e a vaca holandesa que produz 35 litros de leite por dia.


Produção de leite. Outra atividade que será incentivada pela Prefeitura é a produção de leite. Cerca de 30 assentados têm vacas leiteiras.
A partida já foi dada por um dos assentados, o gaúcho de Não-me-Toque Leopoldo Gorgen. Dono de 16 vacas, dez delas produzindo leite, ele conseguiu que a Laticínios Vale Dourado, de Itapetinga (BA) instalasse resfriador de leite em sua residência. “Os produtores não acreditaram quando falei do resfriador. A coisa piorou quando falei que estaria aqui em 15 dias e demorou um mês. Mas, agora, estamos engrenando”, diz Leopoldo.
A coleta é feita a cada três dias. “Na primeira, segundo Leopoldo, foram apenas 276 litros, mas já estamos em 800 litros” diz, orgulhoso, tal como quando fala de sua vaca holandesa que produz 35 litros de leite por dia, em duas ordenhas.
Leopoldo espera a adesão de outros produtores de leite do assentamento. “Quando chegar o primeiro pagamento, o pessoal vai ver que o projeto funciona”, diz Leopoldo. O preço recebido pelo produtor é de R$ 0,70 por litro. “No Novo Paraná, o pessoal recebe R$ 0,90. Aqui é um pouco menos por causa da distância”, justifica-se.
Antes do resfriador, instalado há pouco mais de um mês, grande parte do leite era dada para os porcos.

Casa de farinha e café. Está em construção no assentamento casa de farinha. Os equipamentos vieram do Governo do estado. A construção do galpão atrasou-se, mas Delzi Freire espera entregar à casa de farinha a maior parte da produção de mandioca que acaba de plantar.
No assentamento, o projeto Desenvolver realizará experimento com café irrigado em área de um hectare. O objetivo é convencer a Codevasf a financiar sistema de irrigação, com distribuição de kits a cada assentado.

Mais produção. Paralelamente ao projeto Desenvolver, outra iniciativa é liderada pelo empresário Edgar Marçal Filho. Prevê o preparo e plantio de 600 hectares de área comunitária do assentamento, a construção de galpão e a instalação de moega de soja. A licença ambiental para o desmatamento já saiu, informa Inácio Spengler.
O projeto de Marçal é chegar a 2 mil hectares nos próximos anos.

Gilmar Cardoso Caetano


Responsabilidade social. O coordenador ressalta que o projeto Desenvolver é determinante para o verdadeiro objetivo do assentamento porque vai permitir que os assentados, embora em pequena escala,  produzam com tecnologias de grandes produtores. “O projeto vai incluir os assentados na cadeia produtiva e tornará o assentamento autossustentável, o que trará ganhos com a produção e melhor qualidade de vida para as pessoas que aqui vivem”, afirmou Inácio Spengler.
O coordenador do Desenvolver lembra que os assentados não dispõem, ainda, do título da posse da terra do Incra, o que os impede de se unirem para financiamento de máquinas, implementos e insumos.
A reforma agrária do Governo federal deu a terra aos assentados e os esqueceu – até de entregar o título de posse.

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