Até praças não inauguradas estão sendo destruídas. Na Praça da Matriz, “cavalo-de-pau” danificou o piso
Raul Marques
Da Oeste Comunicação

O piso da Praça Sérgio Alvim Mota (Praça da Matiz) foi danificado por “cavalo-de-pau”.
Vândalos têm provocado sérios danos ao patrimônio público de Luís Eduardo Magalhães, especialmente às praças da cidade. São quiosques parcialmente destruídos, pisos de praça danificados seriamente, cestas de lixo amassadas por chutes e sem tampas, banquinhos quebrados, árvores arrancadas, enfim, toda a sorte de atitudes que acabam atingindo o bolso do contribuinte.
Atos de vandalismo estão se espalhando pela Cidade e ficando mais ousados. Na noite de sábado, 21, para domingo, 22, dois motoristas entraram com seus veículos na recém-reformada praça Sérgio Alvim Mota (Praça da Matriz) e um deles fez a manobra conhecida como “cavalo-de-pau”, o que danificou seriamente o piso. Nessa manobra, um carro, após ser acelerado, é freado bruscamente, o que muda a direção do veículo. A manobra é tida como extremamente arriscada por profissionais de segurança, especialmente no piso do tipo Paver, que pode soltar-se e atingir o vidro do carro ou o motorista.
O ato revoltou frequentadores da praça, operários que trabalharam na sua reforma e até quem tirou fotos dela, com decoração de Natal, para enviar pela Internet.
A Prefeitura está solicitando a filmagem feita por câmeras instaladas nas imediações para tentar identificar os vândalos, mas, a princípio, a intenção é juntar a filmagem às provas na investigação policial que será pedida. Afinal, dilapidar o patrimônio público é crime previsto em lei.
Segundo uma testemunha, um dos carros era uma picape escura, de placa não anotada, com dois elementos. Junto, um carro pequeno, com outros três jovens. A testemunha diz não se lembrar de mais nada, mas confessa que por trabalhar nas imediações, teme sofrer retaliações. Não quis revelar a marca dos veículos. A mesma testemunha, no entanto, foi taxativa ao afirmar que o problema poderia ser evitado se agentes da guarda municipal estivessem na praça dias antes. “Um grupo de jovens sempre parava o carro aí para ouvir som, beber, namorar. Se a guarda municipal tivesse dito que praça não é local de parar carro, o problema teria sido evitado”, disse a testemunha.
A manobra feita na praça deixou marcas no local que virou o xodó da Cidade. O piso da praça, feito em paver, soltou e afundou, deixando triste o gerente geral da Secretaria de Planejamento Vanderlei Giachini. “Quando soube, deu até vontade de chorar. No dia da inauguração, cheguei a acordar às quatro horas da manhã para terminar os últimos detalhes. Aí, vai alguém e faz uma coisa destas. Não dá para entender”, disse Vanderlei.
O próprio Vanderlei não consegue imaginar o que levou uma pessoa, também não identificada, a colocar sabão em pó nas fontes luminosas da praça.
Chutar cesta de lixo é teste de força
“A programação do jogo de luz das fontes pode ser feita de várias maneiras. Programamos para sete formas diferentes. Em um dia, quando foi ligada, uma enorme bola de sabão se formou. Isso é o fim da picada. Não entendo como alguém faz isso”, disse Vanderlei Giachini.

O vandalismo é causado por um transtorno de personalidade, associado a baixos níveis cultural e intelectual e até a baixa autoestima. Alexandre Rizkalla, Psiquiatra
Competições. Querendo ou não, à noite todos os gatos são pardos. Ou seja, na escuridão, é mais fácil vandalizar e se ocultar no breu. Há jovens que preferem usar a Praça Sérgio Alvim Mota como local de autoafirmação quando termina a luz do dia. Na noite de quarta-feira, 25, todos os jovens que estavam na praça evitaram falar com a reportagem, exceto um, de 16 anos, que concordou em explicar o que acontece ali.
Os jovens realizam competições entre eles, cujo único prêmio é o maior respeito do grupo. As competições são regadas a cerveja e outras bebidas alcoólicas, em meio ao som alto dos carros estacionados em volta da praça. “Muitas vezes, o som não fica tão elevado para não chamar a atenção”, disse o jovem. Tal como ele, muitos dos que participam das competições são menores de idade, o que caracteriza mais um crime: uso de bebida alcoólica por menores de 18 anos.
Primeiro, há uma espécie de teste de força e agilidade. Os jovens rodopiam no ar e têm que chutar, como em algumas lutas marciais, as cestas de lixo nas cores laranja instaladas na Praça. O objetivo é desprender a cesta. “É como se a cesta de lixo fosse alguém de outro grupo. Você, ao acertar a cesta, mostra agilidade. Ao derrubá-la, mostra força”, disse, contando, orgulhosamente, que já derrubou duas cestas em outras praças da Cidade.
Nas paredes dos quiosques – as favoritas são as pintadas em cores claras – o objetivo é ver quem consegue levantar o pé mais alto, algo necessário para quem gosta de entrar em uma briga. Em síntese, o jovem corre e dá um pulo para acertar a parede com o pé. Ganha quem colocar o pé mais alto. Entre uma tentativa e outra, todos tomam cerveja ou energéticos com álcool.
Enquanto o jovem falava com a reportagem, um outro grupo, também com menores, formava um círculo que tinha ao centro uma garrafa de vodka e uma cuia de chimarrão, possivelmente usada também como álibi.
O vandalismo pode ser observado por quem passeia ao redor da Praça da Matriz. Perto do abrigo de ônibus, não importa a hora, há sempre garrafas de bebidas quebradas, com lixo fora da proteção plástica. Entre os quiosques, casais de namorados aproveitam a iluminação precária para namorar.
O secretário de Planejamento, Orçamento e Gestão da Cidade, Cândido Henrique Trilha, é um dos mais revoltados com o vandalismo nas praças da Cidade. “Parece que falta amor às pessoas pelo local que escolheram para morar e viver. O povo, além de desfrutar das praças, também precisa fiscalizar”, disse.
Algumas praças que nem chegaram a ser inauguradas já sofrem nas mãos dos vândalos. Outras, mais antigas, sofrem sistematicamente nas mãos de quem as usa para outros fins, como a auto-afirmação.

Vanderlei Giachini
Banheiro destruído. A Praça Aldo de Grandi, no Santa Cruz, é um exemplo de como se destrói um bem público de maneira inacreditável. No meio da praça, que conta com ponto de mototaxistas, há um banheiro sem telhas e sem portas. Pior ainda; sem latrina e pias. Há um buraco no chão e muita sujeira. Ao lado, a quadra de esportes tem um meio alambrado, repleto de buracos e, em alguns pontos, sequer tem arame.
Do outro lado da Cidade, na recém inaugurada Praça Gerson Hoffmann, no Mimoso I, há até marcas de pneus de bicicletas sobre os bancos. As cestas de lixo já não têm mais tampa. Uma delas, na cor laranja, encontrava-se jogada no meio da quadra de futebol society, com lixo ao redor, na última terça-feira, 24. A cesta estava embaixo do banco destinado aos técnicos e reservas de um time ou à arbitragem. No fundo da quadra, no gol à direita de quem entra, há um grande buraco no alambrado, possivelmente feito com alicate. No chão, as grades onde são presas as bicicletas encontram-se, na maioria, amassadas.
Em volta da praça, há material de ambulantes preso e amarrado ao poste de luz. Com corrente e cadeado. No campo, não estavam instaladas as balizes de futebol. Os aparelhos de ginástica permaneciam funcionando.
Jardim das Acácias. A praça do Jardim das Acácias nem foi inaugurada, mas já há sinais de que vândalos andaram por ali. Logo de cara, observa-se que os quiosques foram os primeiros a serem danificados por quem gosta de destruir compulsivamente. No primeiro quiosque, a peça de granito que serviria de balcão foi quebrada, sendo levada uma parte. Faltam também alguns tijolos.
No segundo quiosque, que também teve as peças do balcão danificadas, há três pichações, uma em cada parede. Na primeira, estão pintadas as siglas do PCC (facção criminosa paulista) e o símbolo do partido nazista. Na outra parede, estão pintadas as letras WC (Water Closet), dando a entender que o local, que seria destinado à instalação de uma venda de alimentos e bebidas, está sendo utilizado com outros fins.
No terceiro quiosque, o fato que mais chama a atenção é simplesmente a falta de tijolos na parte da frente, onde seria a bancada. Segundo funcionários que ainda trabalham na construção da praça, os tijolos foram esfarelados e eles resolveram tirá-los antes que só ficasse “a casca” do quiosque.
No chão de cimento da praça há sinais de que carros também trafegaram por ali. O cimento está rachado e a grama próxima amassada. Na área de brinquedos, um já foi destruído. Uma das diversas árvores plantadas foi arrancada. Em um dos cantos da praça, havia um poste que foi retirado do local. O alambrado da quadra poliesportiva está começando a apresentar sinais de destruição.
Transtorno. Segundo o psiquiatra Alexandre Rizkalla, “o vandalismo é causado por um transtorno de personalidade, associado a baixos níveis cultural e intelectual e até a baixa autoestima. Faltam limites para quem pratica atos de vandalismo. Pode ser uma forma do indivíduo se afirmar no grupo, mostrando que é mais corajoso”, disse.
O psiquiatra explica que quando fala em questão cultural não quer dizer isoladamente a educação, o ensino, mas, sim uma abordagem ampla que envolva bagagem cultural. “E não é só um fenômeno aqui de Luís Eduardo Magalhães, não. Você olha na Internet, nas redes sociais, e vai ver que há jovens que se vangloriam de atos de vandalismo cometidos sem o menor propósito”, disse.
Segundo Alexandre Rizkalla, só há uma forma de ajudar o vândalo: o tratamento, com medicamentos (psiquiatria) ou a prevenção (psicologia), conforme o caso. Perguntado se o ato de vandalizar vicia, Rizkalla respondeu afirmativamente. “Se isso torna-se algo compulsivo e feito por puro prazer, para o próprio prazer, para deliciar-se com o ato de destruir é algo muito grave e que necessita de tratamento. Pode levar até a um comportamento caracterizado como sociopatia, que é um grave transtorno de personalidade. Há o desprezo das obrigações sociais e falta empatia pelos outros”, disse.
O psiquiatra não restringe os atos de vandalismo aos jovens e adolescentes. Os mais velhos, com dificuldades em amadurecer, também podem praticar atos de vandalismo.
Origem da palavra. A origem da palavra vândalo remonta ao século V. Vândalos formavam uma tribo germânica que invadiu o Império Romano por volta do ano 450 e criou um estado na região norte da África, com sede na cidade de Cartago. Cartago era uma cidade fenícia localizada mais ou menos onde hoje fica Túnis, a capital da Tunísia.
Estratégica, por estar à beira do mar Mediterrâneo, Cartago foi o ponto de partida da invasão de Roma pelos vândalos. Os vândalos saquearam a cidade em 455 e destruíram muitas obras primas. Vândalo é termo usado para qualificar quem destrói ou depreda bens públicos pelo único prazer da destruição. O significado atual de vândalo como depredador provem do adjetivo francês ‘vandalisme’, cunhado em 1794 pelo bispo republicano Grégoire, que o usava para criticar os depredadores de tesouros religiosos.
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Na Praça do Jardim das Acácias, vândalos derrubaram toda a parede frontal do balcão, além das peças de granito; muda de árvore foi destruída e poste e balanço de brinquedo desapareceram. Na Praça Gerson Hoffmann, foi aberto buraco no aramado e os cestos de lixo ficaram sem as tampas. (Fotos de Raul Marques)
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